Sábado, 4 de maio, já em meio à grande enchente de Porto Alegre (e de quase todo o estado do RS), recebo uma mensagem da Iriz, sócia da hipotética, que estava em Santa Maria – também assolada pelas chuvas e pelas águas –, perguntando sobre nosso depósito, um pequeno box de menos de 3 m2 alugado que guardava, até então, a maior parte dos nossos livros e insumos.
Àquela altura, já não tinha muito que pudesse ser feito. O espaço, que fica no bairro Navegantes, próximo à avenida Farrapos – um dos locais mais afetados –, já estava fechado e a região estava interditada. Foram longos 21 dias até poder pegar o carro, atravessar as ruas de uma Porto Alegre ainda alagada e conseguir entrar no depósito pra conferir as perdas.
As marcas nas paredes dos corredores mostravam que a água chegou a quase um metro dentro do galpão, cobrindo tudo abaixo dessa altura. Dentro, um cenário triste: muitos livros e caixas encharcados no chão e água suja, mas uma pequena sorte: as caixas estavam sobre um palete, pra não ficarem direto no chão – o que as deixou um pouco mais pro alto, diminuindo a quantidade de livros em contato com a água; e tinha mais um palete, escorado na vertical, que ajudou a segurar as pilhas de caixas e impediu que as mais de cima entrassem em contato com a água, segurando elas quando as pilhas colapsaram.
Com isso, a nossa perda foi de mais ou menos 50% do que estava guardado – sem os paletes, possivelmente teríamos uns 60-70% de perdas. Todas as edições de Aloha, de Maco, que estavam lá foram destruídas, assim como praticamente todos os hipotetizines – conseguimos resgatar apenas 39 exemplares da edição 5, o Esperando por você, de Luísa Lacombe. Dos outros livros, conseguimos resgatar uma quantidade razoável de Nick Cave: Piedade de mim, de Reinhard Kleist (384), Boa noite jamais, de Coco Moodysson (326) e Deusas do rock, de Barbi Recanati e powerpaola (385); e praticamente todos os Sobreviventes da fronteira, de Fred Rubim (440) que estavam lá e que fizeram jus ao título: tinham sido os últimos livros a chegar ao depósito e ficaram na parte mais alta, no topo das pilhas.
Também por sorte, nem Ed. Celeste, de Thiago Krening, nem Cornos, de Dieferson Trindade, estavam prontas no momento. As edições ainda estavam em produção na gráfica – onde esperam até que a gente decida como vai fazer com o depósito – e tenha um espaço pra receber as tiragens.
Além dos livros, boa parte dos nossos marcadores, postais, material de embalagem e outras miudezas foi perdida para as águas da grande enchente de maio de 2024 em Porto Alegre. No total, perdemos cerca de 1500 exemplares entre livros e zines, e salvamos cerca de 1600. Foi uma perda bastante expressiva pra nós, e ainda estamos processando tudo e pensando no que vamos fazer a seguir.
Alguns exemplares de Aloha e dos hipotetizines ainda existem, pois estavam em estoques menores na casa da Iriz ou na minha. Também há alguns poucos à venda em lojas parceiras listadas aqui. Nossa loja virtual está fechada por enquanto, pois a situação dos Correios não está normalizada, mas assim que possível devemos reabrir. Os envios do Catarse do Ed. Celeste e do Cornos foram suspensos até julho, pra dar tempo de resolvermos a questão dos livros e os envios estarem normalizados.
Por enquanto, estamos focando esforços em tentar ajudar profissionais dos quadrinhos que foram mais afetados, tendo perdido casa – ou casas, se considerarmos as famílias –, equipamentos e que também estão sem poder trabalhar desde que começou tudo isso. Pra hipotética, o tempo agora é de pensar o futuro e planejar os próximos passos. Agradecemos demais a quem nos acompanha e queria saber como estávamos: estamos bem, e nossas perdas foram restritas ao estoque da editora. Nosso agradecimento especial à Leticia, ao Cesar e ao Edelmar pela ajuda no salvamento e na limpeza dos livros.
Esperamos que todo mundo que nos lê esteja bem, dentro do possível, e que dias melhores nos aguardem. Não precisam ser muito melhores, só não sendo como esse mês de maio já fica mais fácil de encarar!